PEDAGOGIA DA CONVIVÊNCIA

Quando pensamos em convivência, imaginamos que a primeira providência é aprender comportamentos consentâneos com as pessoas do nosso grupo, como se a interação satisfatória fosse simplesmente a adoção do que agrada ao outro da nossa relação. Conviver, sem dúvida, pede novas aprendizagens que, por sua vez, exigem desaprendizagens, o que pode parecer um tanto contraditório.

A prática nos mostra que, provavelmente, a harmonia na convivência resulta mais dos comportamentos (hábitos, atitudes, preferências, etc.) desaprendidos do que apenas da incorporação de condutas estranhas à nossa formação pessoal. A desaprendizagem se irmana com a ideia da desconstrução de atitudes e ações incrustadas no viver e no conviver. O que aprendemos ao longo da nossa história de vida sobre nossos relacionamentos não é necessariamente bom ou mau. Há coisas que percebemos como boas, mas que não se adequam aos relacionamentos que buscamos. É verdade, entretanto, que nos custa abandonar (ou desaprender) hábitos ou formas de expressões pessoais que foram incorporados à nossa maneira de ser. Essa é a dor contida no prazer dos relacionamentos interpessoais. Sem dúvida, nada está mais perto do prazer do que a dor pronta para penetrar em nossa fantasia do puro prazer. Se quisermos estabelecer convivências sustentáveis, precisaremos estar dispostos a palmilhar o caminho das aprendizagens necessárias ao fortalecimento das interações importantes e significativas.

Desaprender não é uma ação pontual, mas um processo que demanda tempo e esforço próprio de cada pessoa. Ninguém que se dispõe a conviver com as pessoas de quem se aproxima pode se eximir de aceitar um processo de desaprendizagem. Desaprender é ter coragem de se submeter a uma depuração da formação pessoal a que as escolhas e as circunstâncias nos impuseram. Não se trata de se expor a uma forma de despersonalização. Pelo contrário, trata-se de uma revitalização de nossa humanidade.

O processo de desaprendizagem tem suas complexidades. Não se deve confundir o que se desaprende com algo que é relegado ao esquecimento. Sem falar especificamente no processo de desaprendizagem, Freud nos ajuda a compreendê-lo, quando diz: “Nada na vida psíquica pode se perder, nada desaparece daquilo que se formou, tudo é conservado…e pode reaparecer” (NASIO, 2008: 29). No que diz respeito a hábitos e condutas aprendidos no contexto da convivência, desaprender implica a substituição por outros comportamentos compatíveis com a interação boa nos relacionamentos que estabelecemos sem que as experiências antigas desapareçam.

A experiência humana é cumulativa, no sentido de que não se extingue. Mesmo nos caminhos da Psicanálise, Freud já percebia a possibilidade de que vivências representativas permanecessem nos neurônios da lembrança. Somos um grande repositório de experiências vividas que enriquecem o ser humano como o ser da singularidade. Somos únicos, ao mesmo tempo que somos seres da similitude. A conjunção do único com o semelhante é o que nos possibilita a convivência, que faz de nós, as pessoas, seres da comunidade.

A título de exemplo, podemos destacar algumas desaprendizagens necessárias:

Impaciência – Substituir a impaciência pelo respeito ao ritmo das pessoas com quem convivemos é uma construção saudável à aproximação e ao acolhimento do outro com suas singularidades. Essa mudança no âmbito da convivência não significa, entretanto, que nos vejamos na obrigação de gostar de certas peculiaridades do comportamento do outro. O não gostar, porém, não nos exime do amor pelo outro. A convivência nos confirma que é possível amar a quem não gostamos por conta de determinadas especificidades de seu comportamento. Por essa razão é possível adotar uma atitude de paciência pelo amor que temos pelo outro. Não se confunda paciência com tolerância. A tolerância é limitada na sua extensão e na sua intenção. A paciência tem um caráter de permanência. A expressão, de significado defensivo, “paciência tem limite” costumeiramente usada, mascara a natureza de nossa humanidade. A paciência será tão ampla quanto extenso for o nosso amor pelo outro. É verdade que, na prática, parece-nos esgotá-la diante de situações que fazem minguar nossas resistências. Se nos cansamos de ser pacientes, resta-nos uma alternativa: descansar e continuar a ser pacientes. A paciência está irmanada com a aceitação do outro, mesmo que isso custe conviver com quem não se pareça com a pessoa que idealizamos e com quem queremos compartilhar projetos importantes de nossa vida. Há quem prefira optar pela tolerância, provavelmente por ser mais fácil de suportar, além de estar, dessa forma, mostrando para si que se faz o possível para manter a convivência. Isso seria minimizar o significado da humanidade do outro com quem convivemos. Talvez por isso H. Maturana nos alerta para o fato de que “…tolerância não é aceitação. Tolerância não é respeito. Tolerância é ação postergada, ou a negação agora com uma ação postergada” (MATURANA, 2001a: 117). A tolerância é efêmera; a paciência é infinita, mesmo que aos nossos olhos imediatistas possa parecer um exagero e aos nossos ouvidos moucos, uma afirmação sem sentido.

A paciência não tem limite, embora sofra alterações com as oscilações de nosso humor. Ela enfraquece, mas não se extingue. A paciência é uma derivação do amor e da esperança. É no dia a dia da convivência que iremos descobrir o que precisamos aprender ou desaprender para nos sentirmos mais confortáveis, possibilitando aos outros as mesmas condições. É uma ilusão pensar que, mesmo seguindo os caminhos da paciência, aprendendo e desaprendendo o que nos pareça necessário à convivência ideal, eliminaremos incômodos e mal-estares pessoais. Provavelmente dificuldades pontuais nos processos de convivência são situações estimuladoras para a busca de formas mais amadurecidas de estarmos na presença uns dos outros de maneira mais humana. Essa é uma circunstância que nos faz entender que as imperfeições são um insumo valioso para a conquista de estágios aperfeiçoados.

Viver e conviver pedem ainda a desaprendizagem da aspereza no trato com as pessoas. Por estranho que pareça, tendemos, com mais frequência, ser rudes e ásperos mais com as pessoas de nossa intimidade do que com aquelas com quem lidamos de maneira formal, como, por exemplo, no ambiente de trabalho ou em grupos com os quais interagimos a intervalos mais prolongados, como na escola, nas comunidades de lazer… É verdade que a convivência marcada pela intimidade (a família é um claro exemplo), por sua própria natureza, ao tempo em que aprofunda a relação de amor, provoca desgastes pela constante proximidade que resulta em desencontros de ideias e desejos a que cada indivíduo, sem dúvida, tem direito. Dito de uma maneira figurada e simples: quando as pessoas estão muito juntas tendem a pisar nos pés umas das outras. É nesse momento que surge a imperiosa necessidade de desaprender as formas rudes e grosseiras de expressar sentimentos e emoções que, necessariamente, fazem parte da convivência. Muitas vezes somos ferinos, usando palavras que poderiam ser substituídas por outras que diriam o necessário de uma forma amena e amorosa. Outras vezes, a agressão se expressa pelo silêncio quando se esperava uma palavra ou um olhar. Somos seres da palavra e, por consequência, seres da audição. A palavra sem o recurso da audição exigirá outros instrumentos, muitas vezes, complexos para se chegar ao outro e expressar emoções, sentimentos, ideias, desejos, necessidades… A convivência se tornará rica ou se autodestruirá pelo uso inadequado da palavra. E não somente pela sua significação, mas também pelo sentido que lhe atribuímos. E mais ainda: pela entonação que lhe emprestamos. É a entonação que valoriza a letra fria da palavra ou que distorce sua significação e seu sentido. Ampliando, ainda, a importância da palavra na convivência, podemos entendê-la no contexto do que Humberto Maturana chama de “conversação”. Para ele o “conversar” tem implicações que transcendem a simples comunicação entre as pessoas, quando diz que “…nosso estar na linguagem, nosso conversar, tem consequências em nossa fisiologia, e o que acontece em nossa fisiologia tem consequências em nosso conversar” (MATURANA, 2001a: 100). Nunca podemos esquecer, sob pena de transtornos na convivência, que alterações em nosso funcionamento corporal, mudam nossos humores, interferindo na dinâmica de nossas relações. O cuidado com a fisiologia do corpo é importante para o bom funcionamento dos nossos relacionamentos.

Sem dúvida, a palavra tem poder. Precisamos desaprender as formas desumanas de fazer o outro da nossa convivência apequenarse no mundo, sentir-se frágil e ameaçado pelo abandono, por momentâneo que seja. É verdade que há pessoas que reagem a tais agressões de maneira a tentar neutralizar quase imediatamente o desconforto provocado. Há, entretanto, outras que amargam dores intensas desencadeadas pela revivência de agressões anteriores de sua história pessoal. As dores da atualidade são, sem dúvida, reminiscências de dores antigas não resolvidas. Muitas delas não fazem mais parte da nossa memória. Por essa razão, a dor de uma rejeição, por exemplo, torna-se mais ameaçadora por nos sentirmos abalados pela ação agressiva que a racionalidade identifica como pequena e inexpressiva. Não encontramos, do ponto de vista intelectual, uma explicação satisfatória para nos sentirmos tão atingidos por aquilo que outras pessoas sequer o percebem. Há convivências que perdem o brilho e o vigor porque as expressões de afeto vão perdendo sua força. Não podemos esquecer que o amor que manifestamos ao outro se fortalece também da coragem de dizer o que desagrada para que possamos enrijecer os vínculos afetivos no contexto das diferenças que constituem a pessoalidade de cada um de nós. No âmbito da amorosidade entre as pessoas, às vezes matamos o outro sem que ele morra, isto é, ferimos mortalmente o mais frágil, fazendo-o sofrer ou dificultando seu soerguimento diante de si mesmo. Desaprender o manuseio de instrumentos de tortura na convivência é mantê-la crescente e exuberante para o bem daqueles que nela estão envolvidos.

É importante, ainda, que chamemos a atenção para o fato de que, em uma relação de convivência, a sensibilidade pessoal de uma das partes poderá interpretar como agressão o que não era o propósito do outro. Nesse caso, a convivência pede que estejamos atentos para não imputar ao outro o que resulta da exacerbação de nossas peculiaridades. Por esse motivo, a convivência é um estado que sempre exige ajustes para que se mantenha um ambiente de prazer no estar juntos.

Vale ainda destacar a desaprendizagem da indiferença na caminhada da revitalização da boa convivência. Indiferença não é sinônimo de desprezo. O descaso e a descrença na expressão da dor física, emocional ou psíquica do outro, independentemente da importância que lhe atribuímos, assemelha-se a um comportamento perverso. Infelizmente agimos, às vezes, dessa forma com as crianças quando, diante de suas dores físicas, por exemplo, querendo resolver o problema, apresentamos soluções verbais mentirosas como “Não foi nada!” ou “Passa já” e coisas desse tipo. A desvalorização do sofrimento do outro, muitas vezes, é expressão de perversidade, pois o deixa confuso a respeito daquilo que está sentindo. É nesse momento que a indiferença se junta à descrença, incluindo na convivência um elemento insidioso e destrutivo: a farsa. As convivências se deformam quando medimos a interioridade do outro por padrões apenas decorrentes de nossas aprendizagens pessoais. É no encontro das aprendizagens de cada um que temos a possibilidade de identificar o que precisa ser desaprendido para que histórias diferentes se unam para fazer uma história comum sem apagar a originalidade de cada história.

Outro exemplo explicitará com mais clareza a necessidade da desaprendizagem para melhorar a convivência. Trata-se da desconfiança como elemento de deterioração dos relacionamentos. Falamos da desconfiança inopinada Aquela que surge da insegurança, não tanto sobre o comportamento do outro, mas da fragilidade dos sentimentos de quem põe no outro as razões dos seus medos. Desconfiar para imprimir no outro o temor de oferecer motivos para justificar o medo de ser enganado é tão perverso quanto submetê-lo ao suplício de estar vigilante o tempo todo para não ser interpretado erroneamente sobre o que diz ou o que faz. Tal situação conduz a uma defesa prévia de algo que não existe, o que leva a omitir situações que seriam comuns constarem do cotidiano nas relações de convivência. Essa circunstância, além de levar à omissão e à alteração de situações não existentes, cria um ambiente de medo e insegurança. Não há convivência que resista muito tempo, pelo menos de uma forma saudável, a um clima de suspeição continuada. Melhor é confiar sempre, correndo o risco de alguma decepção do que desconfiar o tempo todo e minar a resistência e a qualidade de uma convivência fundamentada em suposições que, na maioria das vezes, não estão ancoradas na realidade. A desconfiança mata os sentimentos que poderiam florescer e consolidar a convivência. A desconfiança antecipada aniquila ambas as partes de uma relação possível. A dor, na forma de injustiça, e a ameaça de perda de uma relação almejada podem se transformar em sentimento de menos valia naquele que, impiedosamente, foi atingido pela incredulidade do outro em quem tanto acreditou. Talvez uma das dores mais lancinantes que identificamos nos relacionamentos que adoecem é aquela que se forma pelo germe da desconfiança. Em qualquer grupo de convivência a desconfiança é o motivo mais devastador que resulta no esfacelamento das comunidades humanas como grupos familiares, grupos de trabalhadores, grupos de amizade ou qualquer outro tipo de agrupamento humano que tente reunir individualidades para usufruir das singularidades de seus componentes. Desaprender a desconfiança é um exercício humanizante e, portanto, benéfico para o indivíduo como também para as pessoas no sentido da convivência comunitária.

A experiência mostra que também é preciso desaprender a incredulidade nas possibilidades das pessoas com quem convivemos, o que é verdadeiro para qualquer grupo a que pertencemos. Quando acreditamos no outro (filhos, colegas de trabalho, alunos, por exemplo) no que diz respeito às suas possibilidades de conquista pessoal, instalamos um clima que favorece a melhoria da autoestima, levandoo a lutar contra obstáculos que dificultam seu desenvolvimento. Em muitos casos, essas dificuldades impedem o indivíduo de aplicar seu potencial no processo de ser pessoa em sua plenitude. A descrença poderá solapar os esforços de elaboração de projetos de vida significativos para o crescimento pessoal. Acreditar no outro no que diz respeito às suas possíveis conquistas é estimulo a seus esforços. Todos precisamos da credibilidade das pessoas com quem convivemos. Sabemos, por exemplo, que há filhos que sucumbem às afirmações repetidas dos pais sobre sua impossibilidade de aprender o necessário para vencerem na vida. No caso de alunos, há aqueles que desistem de seguir na vida escolar por causa das críticas persistentes a fracassos circunstanciais na tentativa de avançar no caminho do estudo. No ambiente do casamento, há casais que se distanciam pela descrença na possibilidade de mudança de atitude ou de reordenação do comportamento um do outro. A incredulidade é a decretação da morte da relação entre as pessoas. Pais que não acreditam nos esforços de seus filhos na tentativa de construir um caminho pessoal de vida, contribuem, dessa forma, para a descrença do filho em suas possibilidades pessoais. Somos, em parte, responsáveis pelo insucesso dos filhos, quando não conseguimos perceber seus espaços conquistados, por mínimos que sejam, como resultado de uma tentativa pessoal. Não importa que o que se consiga seja muito pouco diante da nossa expectativa. Há filhos que são esmagados sob o peso da esperança dos pais. Seremos mais humanos nas relações familiares na medida que identificarmos os momentos de estimulação às conquistas que propusermos. A boa convivência tem a ver com o quanto de humanidade exista em nós. Aliás, hoje já se fala em humanitude como a capacidade de construção de uma atitude humana consigo e com os demais. Dar crédito ao outro é estimulá-lo à consolidação de sua humanidade pessoal, mesmo que percebamos nesse outro maneiras incomuns de ser humano. Não importa. Acreditar é mais pedagógico do que minimizar as possibilidades de superação de circunstâncias que dificultam a execução dos projetos de vida.

O que até aqui foi dito, talvez possa ser resumido nas possibilidades que temos de mudar. A mudança ou a transformação é o que faz a vida persistir e se apresentar dentro de um contexto de renovação e criatividade. Sem transformação, certamente não haverá vida no seu sentido ético.

É comum ouvir de algumas pessoas, para justificar comportamentos inaceitáveis ou impróprios, que são deste ou daquele jeito, porque nasceram assim. Essa atitude, sem dúvida, dificulta qualquer convivência. A imutabilidade não se coaduna com a dinâmica da vida humana. Mudamos a cada momento, tanto do ponto de vista corporal quanto da forma de ser pessoa. São esclarecedoras as questões levantadas por D. Chopra sobre as mudanças pessoais, quando diz: “O indivíduo que consideramos ‘eu’ é diferente de hora em hora, de dia em dia, de semana a semana, de ano a ano. Quando dizemos ‘eu’, a que pessoa estamos nos referindo: à criança cheia de inocência e surpresa, ao jovem cheio de romantismo e transbordante de desejo, ou ao ancião à beira da senilidade?” (CHOPRA, 2006: 71).

Quer queiramos ou não, jamais seremos a mesma pessoa do instante anterior. Enganamo-nos quando nos descrevemos como imutáveis sem qualquer possibilidade de mudar hábitos, ideias, sentimentos… A mudança é recurso de infindáveis conquistas para a vida individual como também para a convivência com pessoas e coisas que fazem parte do nosso mundo. Provavelmente quando dizemos “não posso mudar”, o que afirmamos é que “não queremos mudar” ou, talvez, estamos dizendo: “tenho medo de mudar”. A mudança, quando necessária, é o grande instrumento de que dispomos para não vivermos atrelados a circunstâncias que não precisam mais fazer parte da nossa pessoalidade.

Desaprendizagem e mudança são como que irmãs siamesas: precisam encontrar formas harmônicas de convivência. É a partir dessa conjunção que se consolida a forma humana de cuidar dos humanos.

1 Comment.

  1. Para mim, esse texto desvenda os principais segredos para convivência humana poder acontecer de modo saudável, produtivo e amoroso. Mais que isso, evidencia de forma simples e muito didática, os principais fatores que podem inviabilizar a convivência feliz.

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